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domingo, 13 de setembro de 2020

lendas de fantasma e abandono: as muitas mortes do Viaduto das Almas

 


Uma vegetação dominada por árvores altas de eucalipto de pouco em pouco abraça a monumental estrutura de concreto armado e asfalto, embrulhando no esquecimento um dos mais sombrios marcos da história rodoviária brasileira. A pouco tempo de completar uma década de desativação, no mês que vem, o Viaduto das Almas, localizado entre Itabirito e Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, se degrada em silenciosa despedida, sem contudo deixar saudades – principalmente para os familiares e amigos dos cerca de 200 mortos que nunca terminaram a travessia do elevado.

A tensão dos motoristas, que não sabiam se sobreviveriam ao entrar na pista erguida em curva sobre um abismo, deu lugar ao canto dos pássaros, ao sopro do vento na mata, à adrenalina dos praticantes de rapel treinando descidas em cordas e aos passeios de habitantes locais pelo esqueleto cinzento de 260 metros de extensão e 30 de altura.

Considerado por muitos uma armadilha, o elevado em curva fechada sobre o Ribeirão das Almas nasceu Viaduto Vila Rica – homenagem ao antigo nome de Ouro Preto, um dos municípios que a sustentam. Em 1957, o presidente Juscelino Kubitschek compareceu à sua inauguração, para permitir a ligação entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro pela antiga BR-3, atualmente BR-040. Mas a violência dos acidentes, o pior deles a queda de um ônibus da Viação Cometa, ainda em 1969, deixando 30 mortos, fez com que merecesse o nome de Viaduto das Almas.

 

O histórico de desastres e de vidas perdidas de forma brutal se sedimentou nas memórias de muitas pessoas que conviviam com a passagem sobre o vale do Córrego das Almas, como o inspetor aposentado da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Vitório Manzali Filho, de 75 anos. De 1968 a 2002, o policial conviveu com o viaduto e tem lembranças terríveis dos acidentes que lá ocorriam. “Eu era novo na polícia e me lembro de que o acidente da Viação Cometa, com 30 mortos e cinco feridos gravíssimos, tinha comovido a sociedade. Saiu em jornal e nas rádios. Um choque esse tanto de vidas perdidas”, recorda-se.

Mas o policial teria um contato mais próximo com a tragédia do que aquele intermediado pela cobertura da imprensa. “Foi então que tirei plantão e, para o meu espanto, me mandaram guardar o ônibus acidentado na garagem da (Viação) Cometa, até que a perícia chegasse, na manhã do dia seguinte”, conta o inspetor aposentado.

 

A visão do veículo que voou por cima do Viaduto das Almas nunca se apagou de sua memória. “O aço estava retorcido. O ônibus teve o teto esmagado. Ainda dava para ver pedaços de bagagens, retalhos de roupas, muito sangue. E, com todo respeito, partes dos passageiros ainda estavam por lá”, lembra o policial rodoviário federal. Essa imagem fez com que o inspetor Vitório Manzali respeitasse a ameaça que o viaduto representava. Tanto que quando foi designado para ser chefe do trecho, entre 1982 e 1985, decidiu tomar providências imediatamente.

 

“Antes, o trecho era de Conselheiro Lafaiete a Belo Horizonte (BR-040) e de BH a João Monlevade (BR-381). Assim que fui designado para ele, a imagem que se formou na minha cabeça foi a do Viaduto das Almas. Tinha muitos locais perigosos nessas rodovias, mas não posso negar que foi o viaduto que logo me preocupou. Eu me preparei para enfrentar aquilo lá. Antes de assumir, passei um mês indo todo dia para fazer reconhecimento e traçar estratégias para tentar tornar a rodovia mais segura”, afirma o policial aposentado.

Marcas de um passado mortal

Atualmente, as marcas dos acidentes ainda sobrevivem nas muretas destroçadas e falhas ao longo da estrutura em curva. Sob a armação de cimento, areia, brita e aço se adensa uma mata vigorosa, agora livre da interferência das operações de capina e conservação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit). Mas, percorrendo o matagal ainda se encontram vestígios não naturais que indicam ter sido aquele um trecho movimentado. E mortal.

Fonte:EM

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